Domingo, 19 de Setembro de 2004

Raio do puto!!!

tarek hakawati.jpg
Photo by Tarek Akawati


Esta noite tive um pesadelo: sentado a meu lado, estava o neto que não tenho.
Não, o pesadelo não era o meu súbito envelhecimento, embora haja gente que, com a minha idade já é avô.
O verdadeiro pesadelo resultou das perguntas que me ia fazendo, numa ingenuidade cruel.
Começou por me perguntar se tinha assistido ao 25 de Abril. Lá lhe fui dizendo que sim, que tinha sido o despertar da esperança num Portugal tardiamente alinhado com o Séc. XX, naquilo que este tinha de justiça social, respeito pelas pessoas e desenvolvimento.
Enlevado com esta oportunidade de transmitir memórias, mal sabia o que me esperava.
- Então como é que, passado tanto tempo, chegamos ao que somos? O que é que a tua geração andou a fazer? Perguntou, num tom que já me parecia provocador.
Lá lhe fui dizendo que, quando a ditadura terminou, tínhamos dez quilómetros de auto-estradas, hospitais dignos desse nome apenas nas três grandes cidades, escolas secundárias, então liceus, apenas nas grandes cidades ou capitais de distrito, que a grande ambição de dois milhões de portugueses foi procurar uma vida digna a construir os países dos outros e que nos estafávamos numa guerra colonial historicamente perdida. E que, por isso, não tinha sido fácil fazer tudo ao mesmo tempo, tentando convencê-lo que o nosso trabalho fora glorioso.
- Mas então, num momento qualquer, pararam, arrependeram-se?
Nesta altura embatuquei. Não sabia se ele ia compreender porque é que tínhamos começado a diminuir as despesas públicas quando ainda não tínhamos o nível de prestações dos outros países europeus. Se a sua cabeça já iria compreender que em certa altura se optou pelas medidas mais fáceis, diminuindo as despesas em vez de se aumentarem os rendimentos, que em 2004 um ministro das finanças tinha recuperado o princípio de Salazar de que um país se governa como a casa de cada um de nós.
Que, subitamente, quem nos governava tinha começado a assumir a pose de dono do poder e da verdade absoluta.
Que, à frente dos destinos do país, estavam os peões de brega, secretários de estado de governos anteriores, pequenas peças de Lego apressadamente promovidas a funções que desconheciam.
Foi então que surgiu a pergunta que me arrasou.
- E tu, o que fizeste?
Acordei com os olhos esbugalhados e acho que já tenho o Domingo estragado.
Raio do puto…

publicado por bartsky às 08:32
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De Anónimo a 20 de Setembro de 2004 às 11:22

Para um Governo esvaziado de objecto, só nos resta votar nelas, nas profissionais... que as amadoras valem tanto como os políticos! Talvez elas voltem a dar sentido à nossa caminhada política!Artur
(http://docardalaoquintalao.blogs.sapo.pt)
(mailto:arturotoscanini@sapo.pt)


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